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Um percurso de vida alterado com a formação

28/12/2018
by Ana Isa Figueira
Idioma: PT

A vida de Fábio Anjos começou a mudar radicalmente quando, com 22 anos, decidiu entrar num Centro Novas Oportunidades, depois de várias hesitações. Tinha desistido de estudar quando frequentava o 7.º ano de escolaridade. Trabalhou em “quase tudo” e foi já num Centro que concluiu o ensino básico. A seguir, fez um Curso de Educação e Formação de Adultos e nunca mais parou. Hoje, tem 33 anos e é técnico superior de educação especial na Ludoteca da Adroana, uma IPSS da Fundação Champagnat, em Alcabideche.

 

ANQEP: Como foi o seu percurso escolar?

Fábio Anjos: Fiz o 1.º ciclo sem dificuldade. Não era um aluno espetacular mas fazia as coisas consoante eram pedidas. O mesmo sucedeu no segundo ciclo. O abandono da escola deu-se depois no 7.º ano, quando fui para outra escola. Fiquei numa turma em que a maioria dos alunos tinha comportamentos que eram menos adequados. Muitos eram repetentes e deixei-me levar um bocadinho na onda. Tive comportamentos que não devia ter tido e fui suspenso por dez dias, e no final do ano, acabaram por me transferir para a Escola de Alvito.

Senti-me um bocado deslocado e acabei por abandonar a escola aos 13 anos.

 

ANQEP: Como foi a experiência de trabalhar tão novo?

F.A.: Comecei a trabalhar cedo, com 13 anos de idade. Consegui entrar no mercado de trabalho sem dificuldade. Nos anos que deixei de estudar fiz de tudo um pouco… trabalhei na construção civil, fui ajudante de servente, ajudante de carpinteiro, ajudante de canalizador e trabalhei a servir às mesas durante muito tempo. Trabalhava, tinha dinheiro e conseguia ajudar a minha mãe o que era um dos principais objetivos que eu tinha.

 

ANQEP: Aos 22 anos, por que motivo quis voltar a estudar?

F.A.: Dos 15 aos 19 anos estive tranquilo com a minha decisão. Por volta dessa idade, comecei a ver que o mercado de trabalho era muito limitado para a escolaridade que eu tinha. Já na altura, era inconcebível que um jovem da minha idade tivesse apenas o 6.º ano de escolaridade. Por isso, nem dizia que tinha o 6º ano. Dizia que tinha o 9.º ano porque, na realidade, tinha vergonha. Depois, comecei a interiorizar que era vergonhoso um jovem da minha idade ter o 6.º ano e dizer que tinha o 9.º ano. Mais tarde ou mais cedo as pessoas iam acabar por saber, apesar de o meu círculo de amigos e pessoas mais próximas saberem.

 

ANQEP: E qual foi o “clique”? Foi alguém que lhe disse que deveria voltar a estudar?

F.A.: O “clique” foi por ter interiorizado as minhas limitações ou as limitações que causava. Mas também ia falando com pessoas. Os meus amigos estavam todos a estudar e eu andava só a trabalhar. Penso que os meus amigos serviram de grande motivação. Outro grande aspeto foi a minha mãe que sempre fez tudo para que eu estudasse e para me dar as condições para ter um percurso académico “normal” e onde fizesse qualquer coisa ou, pelo menos, o mínimo dos mínimos. E o mínimo dos mínimos não era o 6.º ano. A partir daí comecei, aos poucos, com muito medo, porque uma pessoa que está afastada da escola, vai criando receios e medos. Comecei a pesquisar algumas hipóteses e alternativas para conseguir ter mais escolaridade.

 

ANQEP: Mas essa pesquisa foi como? Dirigiu-se a algum sítio?

F.A.: Numa primeira fase dirigi-me a uma escola com ensino noturno. No entanto, a mensalidade era alta…

 

Depois, falaram-me nas Novas Oportunidades e comecei a pesquisar. Andei neste processo mais ou menos um ano e meio. Mais tarde, uma amiga disse-me que perto da nossa casa havia um Centro Novas Oportunidades. Passei várias vezes à porta, um dia entrei e fui muito bem acolhido. Expliquei mais ao menos o meu percurso de vida e o meu percurso académico.

Analisaram o meu percurso e, mais de uma semana depois, ligaram-me, pediram-me

os comprovativos de trabalho, algumas cartas de recomendação, até que acabei por ser aceite. Fui integrado numa turma que tinha mais ou menos 10 alunos, e os trabalhos eram o reflexo da minha vida e da minha experiência profissional e pessoal. Fui fazendo esses trabalhos com alguma facilidade. Mas, a escrita foi uma dificuldade para mim porque já não escrevia há muito tempo.

 

ANQEP: Fez alguns módulos de formação?

F.A.: Fiz alguns módulos relacionados com Matemática e com o Português. Antes de ir a júri, a coordenadora tranquilizou-me, pois eu tinha um percurso de vida muito válido. Mas, no dia da sessão de júri tive um contratempo. Como tinha trabalhado durante 24 horas, estava mesmo muito cansado. Apresentei um tema relacionado com as colónias de férias das crianças que acompanhava. No final, o júri considerou que, para a minha idade, eu tinha uma experiencia extraordinária e que deveria continuar a estudar. 

Eu respondi que não poderia prometer isso mas, assim que sai, procurei forma de continuar os meus estudos. Como trabalhava com crianças e jovens gostei do Curso de Educação e formação de Adultos de Técnico de Ação Educativa.

 

ANQEP: Mas o curso EFA, pelas suas caraterísticas, já implica a frequência de sessões. Como conseguiu conjugar este curso com o seu trabalho?

F.A.: Na altura tinha dois trabalhos. Tive que abdicar de um por causa do curso que era muito exigente. Não faltei uma única vez às aulas. Entrei com medo, pois o curso era muito abstrato. Mas, os formadores ajudaram bastante. A própria estrutura do curso também está adaptada a estas situações, pois há sempre a possibilidade de fazer os módulos outra vez. Há sempre várias oportunidades.

 

ANQEP: Como é que avalia o curso atendendo à sua experiência?

F.A.: O curso está muito bem organizado. É um curso que se adapta ao percurso de vida das pessoas que estão há muito tempo sem estudar. Penso que no ensino regular, de todo, isso não acontece. Outra questão que para mim foi importante é que havia sempre uma nova oportunidade que era dada pelos professores e pela orientadora para consolidarmos os conhecimentos. O mais importante é que sai do curso EFA perfeitamente apto para trabalhar com crianças e jovens.

 

ANQEP: O curso deu-lhe essas ferramentas?

F.A.: Deu-me as ferramentas todas. É claro que depois as ferramentas têm de ser adaptadas ao contexto onde o técnico esteja inserido.

O curso também nos dá uma base teórica que nos ajuda a perceber porque é que fazemos as coisas, como é que fazemos e porque é que vamos mudar as nossas práticas. Acho que é uma mais-valia conseguirmos aliar a prática à teoria e fazer tudo como deve ser.

 

ANQEP: Ao concluir o curso obteve o nível 4 do Quadro Nacional de Qualificações. Que mudanças sucederam na sua vida com esta certificação?

F.A.: Esta certificação serviu como consciencialização e como capacitação. E, naturalmente, quando terminamos o curso saimos com uma autoestima muito maior, porque aprendemos a fazer uma coisa que, se calhar, até aí não conseguíamos fazer. Não tenho dúvidas que a maioria dos colegas que acabaram o curso, pelo menos aqueles com que mantive contacto, logo a seguir ao curso conseguiram trabalhar na área, até porque o curso era bastante reconhecido pelos empregadores.

 

ANQEP: Havia procura de profissionais dessa área pelo mercado de trabalho?

F.A.: Na altura não havia muitos técnicos. Havia os auxiliares de educação, mas não era bem a mesma coisa. Na altura, no mercado, eram poucas as pessoas que tinham o curso, até porque o meu deve ter sido dos primeiros. Portanto, quando saí, tive imensas ofertas de trabalho.

 

ANQEP: Sentiu-se realizado profissionalmente?

F.A.: Com o curso, já tinha os mínimos. A realização não foi só profissional mas também pessoal. Acho que as duas devem andar sempre de mãos dadas. Profissionalmente estava realizado porque tinha acabado o 12.º ano e era técnico. E pessoalmente, tinha uma nova autoestima e sentia-me capaz de ultrapassar as dificuldades.

 

ANQEP: E continuou a prosseguir os estudos?

F.A.: Os formadores diziam que eu não devia ficar por ali. Mas, na minha cabeça, estava bem assim. Entretanto, um grande amigo desafiou-me a ir para a universidade, para fazer a licenciatura em educação social, no Instituto Superior de Ciências Educativas, em Odivelas. Acabei por ir. As aulas eram à noite e encontrei muitos colegas com percursos parecidos ao meu. A minha experiência profissional e o que aprendi no curso EFA era uma base muito importante. Mais recentemente, concluí o mestrado em Educação Social - Intervenção com crianças e jovens em risco, com uma tese sobre a “Violência entre os pares”.

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