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EPALE

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Sala de imprensa

Uma lufada de ar lá de fora

30/07/2018
Idioma: PT

Há mais de dez anos que todos os caminhos confluem para o Agrupamento de Escolas Marquesa de Alorna no que diz respeito ao ensino de adultos na zona de Lisboa. A oferta é vasta e abrangente. A par dos cursos EFA, há ainda os de Alfabetização e de Competências Básicas, ministrados nas suas instalações e no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), e de Português para Estrangeiros. Aqui, ninguém fica de fora.

Damos conta aqui na EPALE uma secção do artigo publicado no nº 14 da Revista Aprender ao Longo da Vida relacionado com o trabalho que esta escola desenvolve no EPL.

Texto de Guiomar Belo Marques

Rui tem 40 anos e começou a frequentar as aulas no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), há três anos, embora no ano passado elas tenham sido suspensas devido à falta de guardas prisionais. Atualmente, alimenta a esperança de tudo voltar à normalidade, para poder concluir o B3, seu objetivo estabelecido, embora não lhe faça falta em termos profissionais, por ter diploma de um curso de padaria e pastelaria, tirado num centro de Sintra. Tempo não lhe falta, uma vez que está a cumprir uma pena de 14 anos e meio, que pode ser de mais dois, caso perca um recurso que interpôs.

Nos seus tempos de infância, estudou até à 3.ª classe, mas sem grande empenho. Gostava de vadiar, para adiar o momento de chegar a casa e ter de sofrer as sovas que o pai lhe dava. “Depois, fui por maus caminhos”, recorda. Como era menor, foi cumprir pena na Guarda. Quando saiu, tudo lhe correu errado e foi de delito em delito. Agora pensa na filha de 11 anos e sonha com uma redução de pena, para sair dali para fora e viver tranquilamente em família. Até lá, sente-se ocupado nas aulas, onde tem um tempo útil para aprender, “e estar a aprender é sempre bom”. Além disso, não tem dúvidas de que a compreensão das coisas aumenta e leva a “pensar de uma maneira diferente”.

O guineense Sani, de 32 anos, diz que “aprender é a melhor arma”. Com uma pena de 21 anos, também aguarda o resultado de um recurso que interpôs, “por falta de provas”. Quando chegou a Portugal, então com 16 anos, trazia o 9.º ano feito, mas não lhe foi reconhecido. Por isso foi estudar à noite, no ensino recorrente, embora por pouco tempo. Os pais necessitavam de ajuda e, portanto, foi trabalhar numa tipografia.

“Assim que aqui cheguei (à EPL), pedi logo para estudar. O melhor que a gente pode ter é o conhecimento”, afirma risonho o potencial engenheiro de máquinas Sani, que tem fascínio por motores e gosta de seguir em frente. Portanto, enquanto estiver preso, vai continuar a estudar. “Vou até ao fim do que houver”, garante.

A técnica de reeducação na penitenciária Ana Capinha, que acompanha e apoia psicologicamente os estudantes, diz que por cada turma de 20 alunos, chegam ao fim oito ou nove. Entre os mais persistentes na aprendizagem destaca um ex-presidiário que acabou mesmo por concluir o curso de Direito.

Qual a progressão escolar dos seus alunos que, entretanto, saem em liberdade, era o que Fernanda Maia gostava de saber. Coordenadora das aulas no EPL, a professora destaca o quão são diferentes as coisas na prisão. “São pessoas com um percurso muito complicado e a desistência prende-se com problemas emocionais. Vamo-nos apercebendo deles, mas nunca sabemos exatamente o que se passa, porque não gostam de falar sobre eles.” No entanto, não tem dúvidas de que alguns têm a compreensão de que a escola pode ser uma alternativa para, quando a pena estiver cumprida, arranjarem mais facilmente trabalho. Além disso, pode ter reflexos no comportamento que, por sua vez, determina uma redução de pena.

“São pessoas que estão na aula com vontade, disciplinadas, que valorizam os passos que dão. E isso é muito compensador”, salienta Fernanda Maia. Contudo, as aulas que ali são dadas pelos sete professores destacados têm uma infinidade de condicionantes, derivadas das circunstâncias. A ligação à comunidade, o contacto com outras realidades, os passeios, a limitação de materiais possíveis, a falta de recursos de apoio são algumas delas. Para as ultrapassar, criam-se dinâmicas suscetíveis de ser adaptadas ao contexto destes alunos, levando para dentro o que não podem visitar cá fora.

É precisamente tendo em conta todas estas especificidades e condicionantes dos diferentes alunos que é escolhido o tema de vida, que este ano vai ser o património.

Helena Nunes, coordenadora do ensino de adultos deste agrupamento desde o início, realça o facto de procurarem sempre áreas que sejam transversais, ou seja, que obtenham a abrangência correspondente a um universo composto de muito outros. Como o dos estrangeiros, integrado ele próprio pelas mais variadas pessoas: jovens que estão em Lisboa a completar estudos superiores e sentem necessidade de aprender português, imigrantes dos PALOP com défice linguístico e uma infinidade de outros migrantes, que precisam de dominar a língua de acolhimento para terem direito à nacionalidade.

O Agrupamento de Escolas Marquesa de Alorna recebeu uma menção honrosa no âmbito do Prémio Semana Aprender ao Longo da Vida 2016. Não foi certamente um acaso. Esta é uma escola viva, onde diferentes gerações e realidades perseguem um mesmo objetivo: o de aprender para ir mais longe, para pensar melhor, para ser mais autónomo, mais livre. Até mesmo quando se está preso.

Pdf do Nº 14 da revista Aprender ao longo da Vida (em português) disponível em: http://direitodeaprender.com.pt/sites/default/files/uploads/aprender14_completo4.pdf

 

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