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EPALE

Plataforma eletrónica para a educação de adultos na Europa

 
 

Sala de imprensa

Educação de adultos: um direito ou uma obrigação?

19/02/2016
Idioma: PT

No final de 2015, a Associação Europeia para a Educação de Adultos - AEEA (uma organização não governamental, que reúne 123 entidades de 42 países europeus) lançou o Manifesto para a Aprendizagem de Adultos no século XXI.

Este manifesto procura demonstrar como a educação de adultos pode contribuir para mudar a vida das pessoas e transformar as sociedades. Neste Manifesto a educação de adultos é apresentada como um bem comum e também como um direito humano, ao qual não tem sido dada a atenção merecida.

Assim, no entender desta Associação, será necessário desenvolver esforços adicionais, a acrescer aos que já resultam da Agenda Europeia para a Educação de Adultos, confinada, em cada Estado-Membro, aos interesses das coordenações nacionais.

A AEEA apela, pois, para que seja desenvolvida uma estratégia europeia para a educação de adultos, com investimentos sustentáveis a nível nacional, regional e local. Este apelo é feito não tanto pelo facto de esta educação ser um direito, mas sobretudo porque dela resultam benefícios em termos de cidadania ativa; democracia e participação; capacidades de vida para os indivíduos; coesão social, equidade e igualdade; emprego e digitalização; migração e alterações demográficas; sustentabilidade e concretização das principais estratégias europeias.

Aparentemente, tudo isto é verdade e é já corolário de um vasto conjunto de estudos que se conhecem. Assim sendo, o que traz de novo este Manifesto?

O seu grande mérito está na tentativa de abalar as consciências e de recolocar no foco das atenções e, consequentemente, na agenda das políticas europeias uma matéria que, não sendo nova, nem sempre tem sido priorizada ou encarada de um modo mais global, interligando áreas distintas como o emprego, a vida em sociedade, a migração ou a sustentabilidade.

Se olharmos para a história recente da política europeia (e por contágio, também nacional) de educação e formação apercebemo-nos que esta tem evoluído por ciclos: ora se aposta mais na educação dos jovens, ora na dos adultos (gerando um efeito de descontinuidade que nada abona a favor da sua concretização).

A opção por uma ou outra vertente tem, sobretudo, a ver com o facto de os recursos não serem infinitos, o que obriga a fazer opções: ou se aposta nos indivíduos enquanto jovens e se procura redirecioná-los para um percurso formativo que lhes propicie maior grau de empregabilidade ou se procura mobilizá-los, já enquanto adultos, dotando-os de novas competências para empregos mais exigentes e para uma sociedade em mutação. Mas, será desejável continuarmos a esquartilhar a educação e a formação, em função de faixas etárias e de interesses meramente economicistas, descurando toda a riqueza que advém de a pensarmos numa lógica de aprendizagem ao longo da vida? Se efetivamente não há uma idade própria e única para a aprendizagem, se se aprende continuadamente e em múltiplos contextos (maior parte destes informais e não formais), se grande parte da aprendizagem (designadamente da contínua) até sucede em ambientes profissionais ou societais, restará outra solução senão sermos capazes de ponderar uma estratégia contínua de aprendizagem? E o que perdemos se não o fizermos?

O Manifesto já dá conta de tudo o que pode ficar comprometido, mas há mais do que isso. Quando se criam descontinuidades na educação de adultos, sucede algo que é específico desta faixa etária. Os adultos não se motivam para a aprendizagem por obrigação. O sistema não os deposita nas escolas e os “força” a aprender. Os adultos apenas aprendem quando, por si, encontram motivação e interesse para o fazerem e quando o fazem (re)motivam-se para novas aprendizagens. Se as oportunidades de educação e formação que lhes são concedidas se fazem aos solavancos, será difícil captá-los para a aprendizagem.

Além disso, se não pensarmos em colmatar na idade adulta o que não se fez na idade jovem em termos de aprendizagem, como vamos ser capazes de responder aos desafios da competitividade e vivência ativa em sociedade com uma população cada vez mais envelhecida?

E como iremos passar às gerações mais jovens um sentido de exigência pela aprendizagem se as gerações anteriores não tiveram esse ímpeto?

Mais ainda, de que forma iremos construir trajetórias de aprendizagem significativas e contínuas para cada indivíduo e para a sua vivência em sociedade se a aprendizagem destas vidas foi feita sempre em ruturas e descontinuidades, com avanços e recuos?

Tudo isto nos leva a pensar que, se calhar, a educação de adultos não é somente uma questão de direitos mas também e sobretudo de obrigação, sem a qual não haverá uma efetiva aprendizagem ao longo da vida.

Gonçalo Xufre Silva

Presidente do Conselho Diretivo da ANQEP

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