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Wilma Greco: entre a resiliência e a liberdade

Na prisão, juntei todas as partes dispersas de mim: a de missionária, de médica, de voluntária, de professora...

Wilma Greco

Breve biografia

Sou professora numa prisão e voluntária em atividades culturais para os detidos. Trabalhar numa prisão é um desafio diário onde se tem de enfrentar a pobreza dos meios disponíveis e as dinâmicas contraditórias dos alunos adultos, muitas vezes oriundos de experiências de abandono escolar e quase sempre desinteressados em estudar, se não conseguir captar a sua motivação. Adoro o meu trabalho!

A minha história

O que conto hoje é uma história de Aprendizagem ao Longo da Vida. Quando frequentei o 3.º ano da escola primária, tinha a certeza que seria professora, para mostrar que, ao contrário da minha, até os professores têm coração. Depois foi a vez de ser missionária. Mudei de ideia quando me disseram que em África havia cobras. De seguida, decidi que queria estudar medicina, mas logo descobri, da forma mais penosa, que ver sangue me fazia desmaiar. Durante um ano inteiro, até ao meu primeiro recital, decidi que se dançasse tornar-me-ia numa estrela no palco, mas a minha mãe convenceu-me que a dança não oferecia boas perspetivas. Comprou-me um piano e obrigou-me a estudar durante horas intermináveis, porque o caminho em frente estava claramente traçado para mim: estava decidido que eu me tornaria professora de música. A minha mãe era uma mulher com personalidade de sobra. No topo da sua escala de valores estava um emprego estável.

Comecei o ensino secundário. Uma escola secundária linguística, que estava a iniciar a sua primeira turma naquele mesmo ano, a título experimental, parecia uma escolha atraente. Em vez disso, fui levada a pensar que o ensino secundário clássico seria uma escolha melhor. Afinal, era a escola que as minhas irmãs tinham frequentado. Não estava muito convencida, mas, mesmo assim, matriculei-me. Gostei de estudar grego, filosofia, literatura italiana e, no geral, fiquei feliz com a escolha.

Não tive dúvidas quanto à universidade: Sociologia, em Trento. A minha mãe tentou dissuadir-me com todas as suas forças: havia os terroristas da Brigada Vermelha; Trento ficava no extremo norte, diametralmente oposta a Agrigento. Além disso, o que faz um sociólogo? Seria capaz de encontrar um emprego estável depois de me formar? Estava fora de questão. Tive de optar por Línguas Estrangeiras, que pelo menos era uma das minhas primeiras paixões, em Palermo. Não tinha permissão para ir a qualquer lugar para lá de uma viagem de autocarro de duas horas.

Achei que falar inglês permitir-me-ia escapar um dia, mas depois a vida leva-nos por caminhos que aceitamos, em parte por preguiça, em parte por cobardia e em parte porque é assim que tem de ser.

Logo após a licenciatura, foi anunciado um concurso para professores. Fiquei no topo do ranking e foi assim que comecei a ensinar inglês na prisão, num mundo desconhecido que me fascinou e que me trouxe de volta ao meu desejo de um dia ser socióloga.

Na prisão, juntei todas as partes dispersas de mim: a de missionária, de médica, de voluntária, de professora... e aos 50 anos, quando deveria começar a pensar na aposentação, decidi candidatar-me a um doutoramento baseado na experiência prisional.

Wilma

Levei 3 anos, 2 dos quais sob a Covid; 3 anos emocionantes, em que me aproximei do mundo académico com muita humildade e simplicidade, mas também com teimosia, decidida a terminar o meu doutoramento a todo o custo, apesar dos meus neurónios menos jovens, das dores de cabeça frequentes e do facto de me faltarem competências básicas de investigação. Aprendi muito; li centenas de livros e de artigos; segui todas as indicações do meu orientador, que não fazia ideia do que era a prisão, mas na entrevista do exame, os seus olhos verdes profundos ficaram impressionados com a minha paixão.Ele enviou-me a Dachau para visitar o campo de concentração, convencido de que havia uma analogia entre a loucura do Shoah (Holocausto) e a privação da dignidade das pessoas impedidas de liberdade. Realizei investigação de campo com o fascinante título Vida, experiências-limite e o naufrágio interno na prisão. Do limite ao limiar entre a resiliência e a liberdade. Passei com nota máxima na fase dos avaliadores externos e agora vou obter o grau de doutoramento. Quando comecei, não tinha ideia de onde iria parar e se realmente tinha um objetivo. Mas não cedi à tentação de desistir e agradeço a todas as pessoas que conheci, dentro, entre e fora dos muros da prisão. Graças a eles, e por eles, concluí a minha tese, sentindo ter contribuído para a reflexão sobre novos modelos prisionais, que permitem ao infrator escrever uma nova página da sua existência, sonhando e planeando o seu futuro. Eu mesma escrevi uma página assim, contando a história da minha vida.

 

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