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Um resumo da discussão online sobre Inteligência Artificial em EA, por Wayne Holmes

Centramo-nos muito no conhecimento e ignoramos outras áreas mais importantes da educação (a capacidade crítica, a criatividade e a colaboração).

A summary of the online discussion on Artifical Intellingece in AI by Wayne Holmes

Gostei muito de conversar com tantos profissionais de educação de adultos na EPALE sobre Inteligência Artificial (IA) e Educação de Adultos e achei que valeria a pena resumir alguns temas-chave que emergiram da discussão.

A IA já está entre nós

Para começar, alguns participantes sugeriram que a IA já é utilizada para apoiar a Educação de Adultos. Por exemplo, “a IA já é amplamente utilizada na aprendizagem informal através das redes sociais, como o Facebook, e das ferramentas de pesquisa, como o Google” e “algumas pessoas usam as redes sociais como a sua principal fonte educacional”. No entanto, eu sugeriria que, embora as redes sociais e outras ferramentas da Web 2.0 sejam, de facto,  amplamente utilizadas por muitos profissionais de educação e pelos alunos adultos,  não foram efetivamente desenhadas para apoiarem a aprendizagem e a utilização que fazem da IA é tangencial à aprendizagem. O único exemplo genuíno de IA para educação de adultos apresentado foi o de um projeto mencionado na EPALE relacionado com “um kit de e-learning para professores e formadores, que integrou um chatbot que é capaz de responder às perguntas dos participantes”. Na verdade, os chatbots, mas nem todos recorrem a IA, são cada vez mais utilizados para apoiar a educação numa ampla gama de contextos.

Reclamações sobre a IA

Muitos participantes pareciam bastante esperançados quanto ao potencial da IA, com comentários como "a IA pode ser uma ferramenta de apoio e suplementar ao ensino", "a IA oferece mais oportunidades aos que querem aprender" e "a Inteligência artificial é ... uma oportunidade sem precedentes para se alcançar a essência da aprendizagem ao longo da vida ... Pode ser usada para aprofundar o conhecimento sobre o modo de se proporcionar uma melhor aprendizagem individual a cada aluno adulto, tornando a aprendizagem mais significativa e motivadora."

Felicito esse entusiasmo, mas ainda assim aconselharia a sermos cautelosos. Para começar, precisamos de distinguir entre o que quem a desenvolve diz que a IA fará e o que realmente faz. Além disso, antes de fazermos afirmações sobre a IA, precisamos de pensar onde é que a IA está nas ferramentas em questão. Por exemplo, os MOOCs podem usar IA para darem apoio ao back-end da plataforma (para rastrearem os utilizadores e para marketing), mas raramente vemos a IA ser utilizada de forma significativa na interface do ensino. Como profissionais de educação de adultos, também devemos procurar evidências de que as ferramentas de IA realmente melhoram o ensino e a aprendizagem – evidências essas que, atualmente, são muito escassas.

A IA e os profissionais de educação de adultos

Foram feitos muitos comentários sobre a relação entre a IA e os profissionais de educação de adultos, tais como: “a IA pode ajudar os profissionais de educação de adultos a desenvolverem metodologias de ensino e aprendizagem mais eficazes”. No entanto, não estou convencido disso, porque a maioria das ferramentas existentes enfraquecem, efetivamente e de diversas maneiras, os educadores e prejudicam a autonomia dos alunos.

Por outro lado, outros participantes comentaram que “é improvável que os professores sejam substituídos pela IA num futuro próximo”, “a IA… nunca será capaz de substituir um profissional de educação de adultos contemporâneo. A IA não é uma ameaça”. Concordo plenamente que as ferramentas de IA atuais não são capazes de substituir, de forma alguma, os profissionais de educação de adultos, “a IA mede as nossas preferências, o que teclamos, os gostos e os não-gostos e analisa os padrões para nos proporcionar o que gostamos ... Mas, às vezes, o papel do professor é desafiar-nos, levando-nos para fora das nossas zonas de conforto…”. No entanto, muitas vezes não é assim que são comercializados, nem é o que muitos decisores políticos esperam: “A profissão docente não está sob a ameaça da inteligência artificial, no entanto, precisamos de ser vigilantes com o que fazemos enquanto educadores.”

Todavia, como foi referido noutros comentários: "É duvidoso que a IA seja sofisticada o suficiente para trabalhar com as competências de nível superior que algumas qualificações exigem" e " Atualmente, a inteligência artificial é totalmente incapaz de ajudar a desenvolver algumas competências futuras e ainda mais de demonstrar que os seres humanos estão no centro da aprendizagem.” No entanto, concordo que é provável que a IA "mude o papel do educador". “O professor/ educador já assume, cada vez mais, o papel de facilitador, enquanto os alunos aprendem a aprender de forma independente” e, “Acho que haverá um papel cada vez maior de curadoria para os educadores”. Ainda assim, eu sugeriria que usemos a IA para capacitar os professores (não para substituí-los) e para aumentar a autonomia dos alunos (não para alimentá-los à colher).

Finalmente, o papel da educação de adultos no ensino da IA também foi destacado: “É um desafio e uma tarefa importante para os profissionais de educação de adultos proporcionarem a sabedoria necessária às pessoas para gerirem a inteligência artificial de maneira eficaz, razoável e segura.” E “os profissionais de educação de adultos têm o dever para com os seus alunos de os ajudar a entenderem como funciona a IA, para que possam fazer um uso crítico da mesma em vez de serem usados por ela”. No entanto, a questão é “os profissionais de educação de adultos compreendem os desafios colocados pela IA?…. Acho que precisamos de mais discussões sobre este tema e também de mais investigação. Por enquanto, é tudo uma moda e soa a inovação”.

O impacto na Pedagogia

Um ponto forte dos comentários centrou-se na pedagogia: “Desde há algum tempo, não apenas na educação de adultos, mas também no setor da educação em geral, temo-nos focado em temas como a competência para a decisão, competência para a ambiguidade, para a literacia digital, para a criação de sentido, a competência reflexiva, competência do design-thinking, a competência para os sistemas e outras que foram identificadas”. Para isso, como uma pessoa mencionou, “a IA deve ser vista como uma ferramenta adicional”, mas levanta-se uma questão: “Poderá a IA ser utilizada em ambientes de aprendizagem críticos (em aulas de base teórica como a história, as línguas e  a compreensão) para encorajar discussões individuais que possam levar a todos os tipos de caminhos interessantes para os alunos?”. Pelo que sei, nenhuma ferramenta de IA foi projetada para ajudar em qualquer um desses objetivos educacionais ou nos temas mencionados anteriormente (como a tomada de decisão, a reflexão ou a colaboração). Em vez disso, todas as ferramentas tendem a focar-se em assuntos claramente delimitados e estruturados, como a matemática ou a física.

Embora a IA ainda não tenha sido projetada para as disciplinas mais interpretativas, acho que os professores dessas disciplinas devem, como parte do seu ensino, considerar o impacto da IA no seu domínio. Por exemplo, o sistema de IA conhecido como GPT-3 pode gerar texto que parece poesia. Acho que seria ótimo se os professores de literatura/poesia utilizassem o texto gerado pela IA para abordarem questões sobre o que significa ser-se humano.

A IA e os interesses comerciais

O facto de as ferramentas de IA criadas para utilização na educação estarem a ser, cada vez mais, desenvolvidas por organizações comerciais também foi mencionado pelos participantes: “Quando os interesses são movidos por entidades comerciais como as que citou, devemos ser cautelosos quanto aos motivos.” Outros mencionaram a BigTech e a metaverse: “Quando grandes grupos como o Facebook, a Google e a Microsoft começam a olhar para a realidade virtual e para a metaverse, do ponto de vista educacional e escolar, creio que será necessário começar a estudar e a aprofundar o fenómeno que certamente conduzirá, no período de alguns anos, a uma nova revolução (ou simplesmente a uma evolução inovadora específica) com reflexos importantes na vida quotidiana.” Embora eu concorde que precisamos de estar atentos a estes e a outros desenvolvimentos, ainda não estou convencido dos mesmos. Lembro-me de, há quase uma década atrás, ter tentado envolver-me, enquanto estudante, no Meta-precursor do Second Life. Foi divertido, por alguns minutos, mas o potencial educacional que era tão anunciado, na prática, nunca foi alcançado.

Na verdade, este é um cenário típico em que as pessoas inteligentes da tecnologia vasculham para ver onde devem aplicar os seus conhecimentos e, muitas vezes, aterram na educação (porque foram à escola, entendem de educação?). Inevitavelmente, isso leva à criação de ferramentas que tentam dar resposta aos sintomas dos problemas educativos, ao invés das causas desses problemas. Em vez disso, precisamos que os profissionais de educação identifiquem os problemas reais, para os quais os cientistas da computação poderão usar os seus conhecimentos de IA. Se isso acontecer, talvez a educação de adultos se desenvolva de forma interessante, mas com educadores e alunos humanos a controlarem-na.

A necessidade de diálogo

Para concluir, como mencionei, temo que nos centremos em demasia no conhecimento e que ignoremos as outras áreas mais importantes e desafiantes da educação - como a capacidade crítica, a criatividade, a colaboração, e assim por diante. E o problema é que a IA, ou pelo menos as ferramentas de IA que existem hoje e provavelmente as que existirão num futuro próximo, focam-se quase exclusivamente na transmissão de conhecimento. Ao fazerem isso, normalmente automatizam práticas pedagógicas fracas. Onde estão as abordagens inovadoras de ensino e de aprendizagem trazidas pela IA? Também concordo com a pergunta de Ivanova. Temos duas comunidades - cientistas da computação e profissionais de educação de adultos e o problema é que falam duas línguas diferentes. Os cientistas da computação não são especialistas em ensino e aprendizagem e os profissionais de educação de adultos não são especialistas em IA. Portanto, precisamos de mais conversas como esta, para facilitar o desenvolvimento de abordagens inovadoras em resposta aos problemas efetivos da educação de adultos.


Para ler a discussão online na íntegra, poderá visitar a página dedicada, onde também encontrará a discussão em vídeo.

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