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O que é notório nos públicos invisíveis é que ninguém os vê

O tema dos invisíveis e a forma de estabelecer contactos para promover o apoio e o acompanhamento.

Ao ler o artigo do meu amigo e companheiro de percursos de investigação-ação nos temas do acompanhamento a pessoas, a grupos e a comunidades, André Chauvet (fundámos juntos, em 2015, a Associação Europeia Kelvoa sobre este tema), publicado na EPALE sobre as modalidades “fora-de-portas” de acompanhamento, não deixei de notar que a preocupação da abordagem da associação de Bordéus que está a dinamizar experiências neste domínio – La Forge des Compétences – é a de estabelecer um contacto sólido com os chamados públicos invisíveis.

 

Abandono

Trata-se de uma iniciativa com forte carga simbólica no campo das políticas públicas. De facto, importa afirmá-lo, os dispositivos dos sistemas de apoio e de acompanhamento a pessoas, financiados pelo erário público, há muito que desistiram dessa faixa incómoda e difícil da população nos territórios. Quando adiantamos DESISTIRAM isso significa ABANDONARAM.

Recordam-se do último grande esforço de atuação nessa batalha “contra moinhos de vento” que representou a “Caça aos Jovens NEET”, em meados da década passada, quando o Programa Garantia Jovem colocou o seu foco prioritário na identificação, em concreto, dos jovens em situação de desemprego e sem quaisquer participações em ações de educação ou formação? Foram mais de 800 entidades a funcionar em rede a nível nacional, surgiram grandes campanhas no Metro de Lisboa (como desafio aos mais jovens para se inscreverem), foram estabelecidas metodologias de acompanhamento personalizado com gestores de situação para cada jovem inscrito e interessado em participar no Programa e foram promovidas ligações das iniciativas do Garantia Jovem aos programas dos territórios relacionados com jovens e emprego.

O caso do Garantia Jovem

O Garantia Jovem era perfeito? O seu dinamismo tinha muito de marketing e menos de apoios locais efetivos? A relação com as iniciativas de formação estandardizadas (por exemplo, dos centros de formação profissional, formatadas para potenciais participantes, que não para estes jovens) era ambígua? Sabemos que, na ocasião, o debate foi vivo e as diversas abordagens acabaram por não convergir. Mas uma coisa é certa: os invisíveis estavam no centro de estratégias para os tornar tão visíveis quanto possível.

Agora, nos tempos que correm, apagou-se a luz. Já ninguém está preocupado com os subterrâneos. O que conta para as políticas públicas são, em primeiro lugar, os dados e as taxas de qualificação que são publicadas pela OCDE. Aqueles que não visitam, não contactam e não interagem com os dispositivos técnicos de acolhimento e de apoio instalados no país, relacionados com as redes do emprego, da educação e da formação ficam por conta própria ou na esfera das organizações de caridade e assistencialismo ou ainda nas garras das igrejas tipo evangelistas ou das influências de uma extrema-direita cada vez mais ativa junto des “desprezados” ou “colocados nos guetos da globalização”.

 

Porta-a-porta, porque não?

Por tudo isto a iniciativa da associação das terras girondinas – La Forge des Compétences – que André Chauvet menciona na sua pesquisa sobre novas soluções para o acompanhamento local, que introduz o conceito do PORTA-A-PORTA, coloca vários desafios que necessitam de ser aprofundados mas que apontam de imediato para o seguinte:

  • os recursos a serem colocados à disposição, para lidar com os “públicos invisíveis”, devem ter em conta modalidades de elevada proximidade e consequentemente o atendimento de gabinete deve ser colocado como modalidade complementar;
  • a preparação de técnicos que possam “ir a jogo” nesta abordagem mais fina e mais exigente torna-se um imperativo. A preparação dos jovens mediadores de bairro e de comunidades do Programa Escolhas surge como um excelente ponto de partida;
  • o contacto “porta-a-porta” ou outros similares devem ser pontos-de-partida para interações positivas; importa ter soluções a adiantar para fazer evoluir a linha de atuação “fazer COM os JOVENS e não PARA eles” e consequentemente organizar oportunidades que tenham leitura imediata e viabilidade concreta e sem burocracias.

São milhares de técnicos, em equipas dos inúmeros Centros existentes, centros disto e daquilo, que podem vir para rua, agir “fora-de-portas”, apesar do frio e das dificuldades dos recursos profissionais escassos, mas com uma enorme compensação: contribuírem para reverter algumas políticas públicas que estão a enfraquecer o Estado Social e a facilitar dinâmicas anti-democráticas subterrâneas que, como sabemos, preenchem os espaços vazios com a arte que a História já lhes reconheceu.

Neste tema da invisibilidade de alguns setores da população na vida em sociedade e principalmente no terreno do emprego e da conquista da felicidade podemos sempre revisitar a obra de Louis-Julien Petit, no cinema, LES INVISIBLES, vale a pena, claro!

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