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Eu não quero aprender

Até mesmo os mais fortes defensores da educação de adultos sentem por vezes relutância em aprender. Como podemos tornar a aprendizagem no local de trabalho e a educação de adultos em geral novamente atraentes para os aprendentes? Gina Ebner partilha as suas reflexões.

Unwilling to learn

Até mesmo os mais fortes defensores da educação de adultos sentem por vezes relutância em aprender. Como podemos tornar a aprendizagem no local de trabalho e a educação de adultos em geral novamente atraentes para os aprendentes? Gina Ebner partilha as suas reflexões.

“Eu não quero aprender”

Até mesmo os mais fortes defensores da educação de adultos sentem por vezes relutância em aprender. Como podemos tornar a aprendizagem no local de trabalho e a educação de adultos em geral novamente atraentes para os aprendentes? Gina Ebner partilha as suas reflexões.

A minha intenção original era escrever uma reflexão sobre a Semana Europeia da Formação Profissional (EVSW), em Helsínquia. Aconteceu que, durante um dos eventos, tive uma experiência muito estranha e pensei em partilhá-la convosco.

Um pouco de contexto:  Trabalho há cerca de 25 anos em educação de adultos e aprender faz parte da minha vida. Na sua maioria aprendizagem não formal e informal, o que é ótimo. Tenho um crachá da Plataforma Europeia para a Aprendizagem ao Longo da Vida que diz “Continuo a aprender”.

Voltando ao evento da Semana Europeia da Formação Profissional: o debate era acerca das competências para o futuro (com um forte enfoque na digitalização, automação e inteligência artificial). A dado momento, foi-nos solicitado que usássemos os telemóveis para indicar se considerávamos ter as competências necessárias para o futuro. Eu respondi, como muitos outros, que tinha parte/algumas das competências necessárias. E então, alguém do painel disse, indubitavelmente com a melhor das intenções, que nós (e todos os que responderam não ter as competências para o futuro) teremos que aprender muito para estarmos aptos para o mercado de trabalho do futuro.

Foi aqui que a minha surpreendente experiência começou. Tive uma reação imediata e quase física àquela frase. Por um momento não consegui respirar, e o meu primeiro pensamento foi “mas eu não quero aprender” e depois, “o meu futuro no mercado de trabalho é limitado” (tenho 55 anos) e finalmente, “quem tem tempo”. Senti-me um pouco horrorizada. Esta era a primeira vez na minha vida em que eu não queria aprender (também houve situações em que eu não queria ir à escola, mas isso é algo completamente diferente). A minha primeira análise foi que tinha começado a cambalear em direção ao túmulo. Que eu estava a chegar à idade em que as pessoas dizem que não precisam de aprender mais - as pessoas que tentamos convencer de que a aprendizagem é útil e divertida.

Na realidade, isto não é totalmente verdade. Acabei de iniciar um curso de fotografia de natureza, que durará dois anos. Estou, também, a pensar num curso sobre morcegos (adoro morcegos). Tenho uma longa lista de coisas que gostaria de fazer (i.e. aprendizagem informal) e de aprender, se tivesse tempo: ler Robert Musil, aprender Russo, fazer voluntariado (talvez com morcegos?), aprender a falar Holandês e talvez começar a cantar pela primeira vez desde que a minha família me disse, convincentemente, que eu era incapaz de cantar afinada, quando tinha seis anos.

Então porquê a minha reação tão forte e imediata? Após alguma reflexão, concluí que se devia ao “ter que” na frase. Temos que recuperar o atraso. Temos que melhorar as competências e requalificar. Temos que ter todas as competências necessárias. E eu reagi com um sonoro (interior): “Não, não tenho”. Tal como muitas outras pessoas eu estou ocupada: a trabalhar; a viajar; a ter mil e um afazeres; a fazer coisas irritantes, como negociar com companhias de seguros; a tentar fazer exercício físico; a cozinhar refeições saudáveis; a levar gatos muito relutantes ao veterinário. A lista não tem fim, assim que resolvemos um assunto, outro aparece. Tudo isto já deixa pouco tempo para as coisas que gostamos de fazer, tais como encontrar com os amigos, ir ao teatro ou ao cinema, etc. Onde é que eu me encaixo na formação que TENHO QUE fazer?

De repente, para mim, aprender estava ao nível das coisas irritantes que tenho que fazer – os seguros, as entidades financeiras, as declarações de impostos, o trabalho. E, subitamente, ali estava eu a compreender claramente como tantas pessoas se sentem em relação a aprender. As nossas vidas são ocupadas, não nos deem mais uma tarefa obrigatória. E é ainda pior se não vemos nenhum benefício. Vou ser promovido? Serei capaz de mudar para um emprego melhor? São tantas as pessoas que não conseguem benefícios (imediatos). Não admira que respondam com um retumbante NÃO.

Depois de divagar sobre a minha experiência, passo agora às minhas reflexões mais racionais:

Mudemos a narrativa sobre a educação e formação profissional contínua, e sobre a educação de adultos. Vamos parar de dizer às pessoas que elas têm que aprender / fazer formação / melhorar as competências / requalificar-se. No local de trabalho, vamos falar sobre a grande oportunidade que a aprendizagem programada trará e não que “Temos que fazer formação”. Vamos, de facto, ter mais aprendizagem no local de trabalho durante o horário de trabalho para aliviar a pressão sobre os funcionários.

Vamos alterar os argumentos para: quanta satisfação a aprendizagem pode trazer; quantos benefícios se pode obter mesmo que não sejam financeiros; não se trata de uma tarefa, mas de uma atividade interessante e recompensadora.

Vamos aproveitar e promover todos os tipos de aprendizagem.

Aprender pode fazê-lo feliz.


Gina Ebner é a Secretária-Geral da Associação Europeia para a Educação de Adultos (EAEA) e a Coordenadora Temática da EPALE para o tema Apoio ao Aprendente

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