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Educação para a Paz e Solidariedade na Aprendizagem e Educação de Adultos (AEA)

Três meses após o início da guerra, continuamos a ouvir relatos inspiradores de resiliência, coragem e solidariedade na Ucrânia, apoiados pela AEA.

Peace Education and Solidarity in ALE

Autoria: Christin CIESLAK

 

A invasão da Ucrânia provocou ondas de choque em todo o continente europeu. Três meses após o início da guerra, continuamos a ouvir relatos inspiradores de resiliência, coragem e solidariedade. Na Ucrânia, a comunidade de educação de adultos e a sociedade civil desempenham um papel crucial na organização não só de assistência humanitária, mas também de apoio psicológico e de atividades culturais para os cidadãos. Fora da Ucrânia, os refugiados recém-chegados recebem orientação e oportunidades de aprendizagem. Surgem novas iniciativas todos os dias, criando um quadro complexo de educação para a paz e as suas múltiplas abordagens.

Educação para a Paz (EP)

A Educação para a Paz é “o processo de preparar as pessoas para ameaças de violência e estratégias para a paz [implementadas por] educadores para a paz que se esforçam por disponibilizar perspetivas sobre o modo de transformar uma cultura de violência numa cultura pacífica”. (Harris, 2011)

Na prática, porém, a educação para a paz envolve muito mais. A EP inclui uma multiplicidade de objetivos e de abordagens:

Será que o programa de educação para a paz é desenhado para melhorar as competências de resolução de conflitos interpessoais, para promover a reconciliação com adversários políticos ou para promover uma reaproximação pacífica junto de determinado grupo étnico ou racial?

Dependendo das respostas a estas perguntas, as abordagens didáticas utilizadas podem ser muito diferentes.

Neste contexto, Salomon (2005, p. 7) e.g. sugere três categorias de educação para a paz:

  1. A educação para a paz em regiões difíceis que visa reduzir “conflitos violentos em curso entre adversários reais [...] acompanhados [...] por narrativas que nos descrevem (os bons) versus (os maus), eles”;

  2. A educação para a paz em regiões de tensão interétnica para enfrentar “tensões interétnicas, raciais ou tribais entre uma maioria e uma minoria”;

  3. A educação para a paz em regiões marcadas pela tranquilidade, tendo como alvo “nenhum adversário especificamente identificado com o qual se deseja paz, reconciliação ou coexistência, educação sobre a paz mais do que educação para a paz”.

Isso mostra que, embora o termo educação para a paz contenha como denominador comum o ensino para a paz,

“a aprendizagem implicada na aquisição de competências e artes de pacificação é muito mais do que educação sobre a paz. [Portanto,] a [EP] abrangente deve ser o quadro fundamental para a maioria das aprendizagens sociais, e certamente para toda a educação formal [e também deve] abraçar a possibilidade da transformação humana que é urgentemente necessária e possível” (Jenkins, 2013)

A educação para a paz é uma abordagem educativa complexa que envolve muito mais do que a ausência de guerra. Em vez disso, incorpora todas as abordagens de educação e de aprendizagem que apoiarão os cidadãos a desenvolver a sua compreensão das relações e da sociedade, bem como o seu crescimento pessoal, portanto, “os diferentes aspetos do desenvolvimento social” (Bag, 2020).

Da destruição à criação: uma experiência do terreno

Atendendo a esta base teórica, como pode a educação para a paz ser implementada na prática? Embora a paz possa parecer inatingível, centenas de pessoas trabalham árdua e diariamente na construção de pontes entre comunidades separadas, superando preconceitos, medo e falta de confiança.

Um excelente exemplo deste trabalho inspirador é o projeto From Destruction to Creation. Ways of Reconciliation in the Ukrainian Society, realizado pelo Integration and Development Center for Information and Research in Ukraine (IDCIR), em parceria com a DVV International Ukraine, que ganhou o Prémio EAEA Grundtvig, em 2016. Os líderes locais de AEA - que agora dão resposta à atual invasão brutal pelas forças russas - conceberam iniciativas criativas, estimulantes, e baseadas na comunidade para aumentar a consciencialização sobre a luta das pessoas deslocadas internamente na Ucrânia.

Entre as atividades propostas no âmbito deste projeto, a formação e os flash mobs sobre o discurso de ódio, um street quest e uma exposição de arte num abrigo antiaéreo contribuíram para o desencadear de conversas significativas e para mudanças duradouras. Os moradores começaram a ver as pessoas deslocadas internamente com novos olhos. Destacando as conexões recém-criadas, a gestora do projeto Yuliya Golodnikova afirmou: “Surgiram novas iniciativas não planeadas – alguém bateu às portas das casas dos realojados, convidou-os para um concerto, reuniu as pessoas para um chá e ofereceu-se para conversar”.

A iniciativa, que reuniu pessoas de muitas organizações e origens, incluindo ONG, bibliotecas, museus e galerias, bem como professores, estudantes e funcionários públicos, não é apenas um empreendimento inovador, mas também uma experiência concreta que pode inspirar profissionais de educação e alunos a refletir sobre o potencial da educação para a paz, antes/durante/após um conflito. Em última análise, a guerra é uma questão de destruição. Em forte contraste, a educação é uma prática de construção.

Numa Nota sobre a guerra que se seguiu à história reimaginada do cerco de Tróia, no livro An Iliad, o escritor italiano Alessandro Baricco convida o leitor a refletir sobre a natureza da guerra. Apesar do seu caráter feroz, os conflitos ainda atraem muitas pessoas. Precisamos, portanto, de construir outro tipo de beleza - o da paz. Com esta finalidade, é necessário o trabalho de milhares de artesãos para a paz, bem como dos seus profissionais de educação e dos aprendizes para a paz.

Resiliência, força e ambições: a educação para a paz com vista à reconstrução 

Confrontados com os horrores da recente guerra na Ucrânia, o resto da Europa testemunhou a incrível resiliência e força demonstradas pelos ucranianos e pela sua sociedade civil. Um compromisso surpreendente, o orgulho na sua cultura e herança e a obstinação em não abdicar destes irão inspirar gerações de europeus.

Apoiado por vários Estados-Membros, o povo ucraniano aprova amplamente a candidatura do seu país à adesão à UE. A educação para a paz terá um papel fundamental na promoção e proteção dos valores comuns da UE - incluindo a solidariedade, a tolerância e os direitos humanos - pelos quais a Ucrânia luta incansavelmente. Apesar de ser necessário um conjunto de reformas estruturais para satisfazer os requisitos de adesão à UE, a educação e a cultura servirão como uma base sólida para o desenvolvimento conjunto de um futuro europeu para a Ucrânia.

Literatura

EAEA, 2016, From destruction to creation: Grundtvig Award winner on reconciliation in Ukraine

EPALE Podcast, 2022, The war in Ukraine and adult education. A voice from Kyiv

EURACTIV, 2022, Portugal values Ukraine’s European aspirations, says parliament speaker

Gavriel Salomon & Baruch Nevo, 2005, Peace Education: The Concept, Principles, and Practices Around the World, Psychology Press

Ian Harris, 2011, History of Peace Education; In Gavriel Salomon & Ed Cairns, 2011, Handbook on Peace Education, Psychology Press

IRI, 2021, IRI Ukraine Poll Shows Support for EU/NATO Membership, Concerns over Economy and Vaccines for COVID-19

Roman Petrov, 2020, EU Common Values in the EU-Ukraine Association Agreement: Anchor to Democracy? in 8(1) Baltic Journal of European Studies, volume 8, issue 1 pp. 49-62

Sraban Kumar Bag, 2020, Peace Education: Problems and Possibilities; in Peace Education, Dr Bimal Charan Swain & Dr Rajalakshmi Das, 2020, Lulu Publication, pp. 200-2019

Tony Jenkins, 2017, The transformative imperative: the national peace Academy as an emergent framework for comprehensive peace education; in Journal of Peace Education, volume 10, issue 2 (August 2013) pp. 172-196 

 

Fotografia de abertura de Ben Wilkins no Unsplash

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Comentário

Un grand merci Christin CIESLAK pour cet article.

Info qui peut intéresser la communauté EPALE, en lien avec votre article :

un laboratoire d'Education à la paix, dont le principal collectif se trouve à San Remo, en Italie, oeuvre sur plusieurs thématiques et projets européens : <http://eiplab.eu/eip-lab&gt;

Le contact principal est Claudio DONDI.

Je fais également un focus sur un projet européen prévu jusqu'en 2023 :

Le projet Peace Games réunit 9 organisations de 6 pays différents collaborant ensemble pour contribuer au développement des compétences sociales, citoyennes, et démocratiques de l’apprenant.e, en utilisant le potentiel créatif de l’apprentissage par le jeu, dans un contexte formel et informel.

Le projet repose sur les résultats de nombreux projets Erasmus+ , comme le projet Upper, d’échange de bonnes pratiques et de développement de modèles de compétences pour les apprenant∙e∙s et les éducateur∙ice∙s pour apporter la paix, la transformation et résolution des conflits, l’éducation à la citoyenneté et aux valeurs démocratiques et au respect pour la diversité, au centre des pratiques éducatives quotidiennes. Le projet « Peace Games » est issu du EIP Lab (Education inspiring Peace Laboratory) créé à Sanremo à la suite du projet Upper, pour répondre aux besoins de conseils et d’orientation de la communauté éducative et des apprenant∙e∙s en matière d’éducation à la paix. Le projet répond à ces besoins en développant une analyse et une sélection de jeux existants basées sur les objectifs pédagogiques potentiels et une communauté d’acteurs impliqués dans la production et l’utilisation de jeux relatifs à la paix.

Les objectifs de Peace Games : https://freref.eu/?page_id=1376

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