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"A cultura é um poder suave". Resumo da discussão da EPALE sobre Cultura em situação de crise

Durante a última discussão em direto, Julie Ward e Daryna Zhyvohlyadova debateram a situação atual na Ucrânia e o papel da cultura.

Culture is a soft power. Rundown of EPALE online discussion

Na última discussão da EPALE sobre Cultura em situação de crise, realizada no dia 28 de abril de 2022, Christin Cieslak (EAEA) e as peritas em Aprendizagem e Educação de Adultos, Julie Ward e Daryna Zhyvohlyadova, debateram a situação atual na Ucrânia, o modo como a invasão das tropas russas tem sido enfrentada com enorme resiliência e o papel da cultura nesta situação.

A discussão foi iniciada com a pergunta: o que queremos dizer quando falamos de cultura em situação em crise? Julie Ward começou por destacar a profunda importância da cultura nas nossas vidas, sem ser numa situação de crise, antes da atual guerra na Ucrânia, como uma componente crucial do bem-estar humano. Também referiu que, num cenário de conflito como o que enfrentamos agora, a cultura poderia ser reavaliada e até servir como um elemento fundamental de identidade. De acordo com a mesma, a cultura enquanto forma de arte pode ser usada como um poderoso meio de expressão para ilustrar situações de vida e de morte.

Daryna Zhyvohlyadova reforçou o comentário de Julie, ao dizer que, durante uma crise, a definição de cultura é um sistema de valor, que funciona como parte integrante da comunidade. Assim, quando as pessoas, as ideias e os valores se unem, age como uma espécie de base comum para esclarecer ideias e a identidade, especialmente se o património cultural, que funciona como pano de fundo para esses valores, correr o risco de ser perdido e eliminado. Além disso, Daryna salientou a necessidade de direcionar recursos e de desenvolver novas ferramentas, métodos e estratégias para sustentar esses valores. 

De seguida, acompanhando a questão sobre a forma como a perceção da cultura e da arte mudou em tempos de crise, Daryna acrescentou que em tempos de crise, a cultura e a arte são percecionadas de forma diferente e têm significados diferentes, sublinhando como a invasão da Ucrânia levou a mais conectividade, cooperação e compreensão mútua entre diferentes grupos de pessoas, como os trabalhadores do setor médico, científico e museológico, com o objetivo unificador de proteger o seu património cultural. Também destacou que, embora essa mesma crise esteja a pressionar as pessoas a centrarem-se na sobrevivência e na manutenção das suas necessidades básicas de comida, água, abrigo, etc., a cultura continua a ser considerada crucial e algo pelo qual vale a pena lutar, pois ajuda a ter ânimo e incentiva a população a resistir.

Julie concordou com estas afirmações, enfatizando que a cultura está indissociavelmente ligada a uma luta pela defesa da identidade e vice-versa, através de poemas, canções, danças e iconografia familiar. Julie deu o exemplo de que noutros países, como a Lituânia, foram feitos protestos silenciosos contra o uso da violência sexual como arma de guerra.

Abordando a questão de se saber se a cultura exercida durante uma crise é um luxo ou uma necessidade, Daryna referiu-se à cultura como um poder suave para sublinhar a sua importância. Julie deu seguimento a esta ideia, relembrando a sua experiência anterior na Palestina e resumindo que sem cultura, não há nada pelo qual valha a pena lutar e que a cultura não é, de forma alguma, um luxo. Em tempos de austeridade, os setores culturais são os primeiros a ter cortes no financiamento. Ainda assim, durante as situações de conflito, o verdadeiro valor da cultura e o seu impacto na unificação, ao proporcionarem coragem e resiliência, não podem, de alguma forma, ser medidos.

Logo após, Christin encerrou a discussão com a última pergunta sobre como podemos apoiar a preservação da cultura e das atividades culturais durante uma crise. Inicialmente Julie afirmou que, atualmente, a maneira de apoiar a cultura na Ucrânia não deve ser minimizada apenas com ajuda financeira e com donativos. Em vez disso, esta especialista mencionou a importância de chegar aos artistas e a grupos ucranianos, de perguntar pelas suas necessidades concretas e, por exemplo, de dar espaço ao seu trabalho, online ou nos locais. Depois, Daryna referiu uma ação concreta da sociedade civil para estabelecer apoio logístico para o transporte de peças de arte em segurança. Também frisou que o conhecimento dos especialistas e o equipamento especial são de elevado valor neste momento para a preservação do património cultural. Finalmente, apelou a organizações e a artistas para colaborarem com os ucranianos e também agradeceu a muitas organizações europeias, como a Fundação Cultural Europeia, pelas suas campanhas de angariação de fundos. Na sua opinião, os recursos devem ser distribuídos pelos diversos tipos e grupos dos setores culturais, pois todos são afetados pela atual crise.

Entre os utilizadores da EPALE houve um amplo consenso de que a cultura não é de facto um luxo, mas uma necessidade, porque "é através da cultura que uma nação encontra forças para sobreviver, apesar do que está a acontecer no seu território". Um utilizador até descreveu a crise, por si só, como necessária "para mudar as nossas mentalidades, lutar por valores e recriar novos pensamentos e formas, na cultura e noutras dimensões. " Ao longo de todos os comentários, pudemos perceber a apreciação e a admiração pela resiliência do povo ucraniano.

Baseando-se nas observações de Julie de que o apoio pode assumir todas as formas e "poderia começar em pequena escala e informalmente", os utilizadores referiram múltiplos exemplos de iniciativas de apoio:

  • A campanha de angariação de fundos "Let's Save Ukrainian Cultural Heritage" da Biblioteca Nacional da Letónia recolheu mais de 16.000 euros para comprar e entregar à Ucrânia materiais necessários para preservar a sua arte.

  • Creatives for Ukraine: uma plataforma que reúne peças de arte criativas, de todo o mundo,  sobre a guerra na Ucrânia e que mostra solidariedade para com os ucranianos.

  • A canção "Resistance"  que resulta da colaboração de músicos da Letónia, da Lituânia, da Rússia, bem como da Ucrânia. A canção convida as pessoas a apoiarem a Ucrânia e os nossos valores europeus partilhados.

  • Love Welcomes: uma empresa social que apoia mulheres refugiadas a encontrarem trabalho na reciclagem de materiais descartáveis  que são transformados em produtos domésticos artesanais vendidos globalmente.

  • Uma iniciativa da ONU que apoia os chamados mercados pop-up no Reino Unido, designados Made51, empresas sociais experientes com artesãos refugiados que os ajuda a obter rendimentos através da arte, por exemplo, gerindo os pedidos, a produção e a logística.

Agora é o momento de agir e de ajudar a preservar a herança cultural ucraniana, erguendo as nossas vozes e fazendo-as ouvir na Ucrânia.

Poderá ler a transcrição completa da sessão aqui.

Fotografia de abertura de Thomas Claeys no Unsplash

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