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Aprendizagem em todas as etapas da vida

28/12/2018
by Ana Isa Figueira
Idioma: PT

Aprende-se ao longo de toda a nossa vida e, por essa razão, não faz sentido perspetivar a educação e a formação profissional para as idades mais jovens (apenas numa lógica de aprendizagem inicial) e a aprendizagem ao longo da vida para as idades menos jovens (unicamente como uma segunda oportunidade).

Atendendo ao que é a nossa atualidade, é cada vez menos entendível que haja barreiras estanques a delimitar o nosso estado de aprendiz “jovem” ou “adulto”. As nossas vidas são contínuas e em todas as idades há lugar a aprendizagens, quase sempre cumulativas, no sentido em que vão acrescentando valor a quem somos.

O que se aprende ou o que não se aprende numa determinada idade tem implicações daí em diante nos projetos de vida que cada um de nós vai construindo à medida que avança no tempo. Ainda que tenhamos de ir reconstruindo os percursos de vida e de carreira, em função das vicissitudes que vamos enfrentando, em especial resultantes das mudanças que vão sendo ditadas pela aceleração digital, pela globalização e pelas alterações demográficas, continua a ser verdade que as opções de vida, de aprendizagem e as vivências que fazemos ou que preterimos vão definindo os percursos possíveis a que iremos tendo acesso. E é por isso que, apesar de todas as incertezas que o futuro nos reserva, permanece como necessário fazermos um percurso de formação inicial com qualidade, em termos de aprendizagens essenciais e tecnicamente relevantes e ajustadas às necessidades que são sendo ditadas, a cada momento, pelo mercado de trabalho e pela sociedade.

É também inevitável que, nestes trajetos de vida, as aprendizagens que tenhamos de fazer se entrecruzem com momentos de educação e de formação profissionais, alguns mais formais, outros menos ou até informais. Mas todos estes momentos devem concorrer para a obtenção de competências que deverão favorecer o delinear e a prossecução dos nossos projetos de vida e de carreira, mantendo-nos sempre (em qualquer momento das nossas vidas) aptos e capazes de podermos ser empregáveis, inclusos e participativos nas sociedades em que vivemos.

Tudo isto parece evidente mas, efetivamente, é questionável se as políticas de educação e formação prosseguidas têm promovido este tipo de aprendizagens. A principal questão está em sabermos se essas políticas têm sido capazes de contribuir para que todos, sem exceção, sejam capazes de obter sucesso nas suas trajetórias de vida. Regra geral, todas as políticas procuraram prosseguir essa intenção mas sem sempre conseguiram ser bem-sucedidas, como demonstram as análises efetuadas por vários organismos, assentes em resultados e nos impactos alcançados nos últimos anos.

O relatório anual da Comissão Europeia - Monitor da Educação e Formação 2017 (uma publicação que retrata a evolução dos sistemas de educação e formação profissional da União Europeia, medindo os progressos alcançados pelos diferentes Estados relativamente aos objetivos de Educação e Formação para 2020) trouxe à tona evidências de uma realidade bastante inquietante. De um modo generalizado, os sistemas nacionais de ensino e formação têm conseguido progressos ao nível da eficácia mas não estão a conseguir combater as desigualdades. A equidade no ensino ainda é um grande desafio, não só para as gerações que são formadas num dado momento mas também para as seguintes, já que os sistemas vigentes tendem a perpetuar as mesmas desigualdades entre gerações. Além disso, estes mesmos sistemas continuam a não responder de forma adequada aos indivíduos provenientes dos meios socioeconómicos mais desfavorecidos. Desta forma, o estatuto social dos pais continua a ser determinante nos resultados escolares dos filhos, perpetuando-se as situações de pobreza que, por sua vez, induzem restrições no acesso a melhores condições de trabalho e até de vida.

Os efeitos desta desigualdade, gerada pela incapacidade de se alcançarem níveis mais elevados de qualificação, são, de facto, assustadores, não só em Portugal mas também um pouco por toda a Europa. Este mesmo relatório revela que “as pessoas que completaram apenas o ensino básico têm quase três vezes mais probabilidade de viver em situação de pobreza ou de exclusão social do que as pessoas com o ensino superior”. Em 2016, por exemplo, “apenas 44% dos jovens dos 18 aos 24 anos que tinham concluído o terceiro ciclo do ensino básico estavam empregados”. O fosso entre os que têm menos e os que têm mais qualificações em termos de empregos é notório também quando alargamos as faixas etárias. O estudo já citado revela ainda que “no conjunto da população entre os 15 e os 64 anos, a taxa de desemprego é igualmente muito mais elevada entre as pessoas que têm apenas o ensino básico do que entre os diplomados do ensino superior (16,6% contra 5,1%)”.

Para além disto, o estatuto socioeconómico é igualmente preditor do nível de sucesso que alguém pode almejar, o que significa que os sistemas de educação e formação europeus não estão a conseguir compensar as fracas condições de partida dos alunos, sendo esta uma situação que se agudiza quando falamos de migrantes. O mesmo estudo indica que “33,8% dos estudantes dos meios socioeconómicos mais desfavorecidos têm fraco aproveitamento, em comparação com apenas 7,6 % dos seus pares mais privilegiados”. Além disso, “em 2016, 33,9% das pessoas entre os 30 e os 34 anos residentes na UE mas nascidos em países terceiros eram pouco qualificadas (concluíram o terceiro ciclo do ensino básico ou menos), em comparação com apenas 14,8% dos seus pares nascidos na EU”.

Como todos sabemos, o insucesso escolar tem como principal corolário o abandono escolar precoce e este tem repercussões pela vida fora.

Portanto, se os Estados-Membros têm como objetivo chegar a 2020 com um melhor desempenho, expresso em metas, nos domínios da educação e formação (ao nível do abandono escolar precoce, da escolarização da população adulta, do número de diplomados com ensino superior, do desempenho em ciências, matemática e leitura, da empregabilidade nos diplomados dos cursos profissionalizantes de nível secundário, e da participação em atividades de aprendizagem formal ou não formal) há que repensar e que atuar de modo mais consistente, abrangendo todas as fases das nossas vidas. Como já vimos, não basta atuar apenas numa determinada faixa etária e esperar que o tempo resolva o resto, expandindo os efeitos às restantes. Há, como já dissemos, relações de dependência e de contágio entre as gerações que obrigam a considerar como determinante e necessária uma política de educação e formação que seja contínua e transversal a qualquer idade.

Efetivamente, o que se fizer de insuficiente nas idades jovens repercutir-se-á nas faixas etárias que se sucedem, porque se numa determinada etapa somos jovens noutras somos adultos. E, o que não se fizer na idade adulta tem também repercussão nos mais jovens, pois há um efeito de contágio entre as gerações que se sucedem. Se, por ventura, se negligencia uma geração, descurar-se-á igualmente a geração seguinte.

Em suma, a eficácia dos sistemas de educação e formação dependerá sempre da capacidade que possamos ter de delinear e de implementar sistemas de educação e formação que se concretizem efetivamente ao longo da vida, ajustados as especificidades que cada cidadão (sem exceção) vai tendo nas diferentes etapas da vida.

 

Ana Cláudia Valente

Vogal do Conselho Diretivo da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional

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