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Preparados digitalmente para o futuro?

28/12/2018
door Ana Isa Figueira
Taal: PT

Preparados digitalmente para o futuro?

O anúncio da 4ª Revolução Industrial fez despertar muitos dos receios que nos habituámos a ver retratados em filmes de ação e de ficção. Nestes filmes as máquinas acabam por suplantar os seres humanos, tornando-os obsoletos e descartáveis. E, por isso, muito se tem escrito sobre cenários, num futuro já muito próximo da nossa atualidade, em que os seres humanos, para poderem continuar a ter um papel na sociedade e um lugar no mercado de trabalho, precisarão de evoluir para além do espectável em termos biológicos, mediante progressos e acrescentos gerados pela biomédica ou pela biónica, que os levem a ser capazes de competir com robôs e outras máquinas alimentadas pela inteligência artificial e pela Internet das Coisas.

Mas a verdadeira e mais premente competição (pelo menos para já) não será entre seres humanos e máquinas, mas antes entre humanos com competências para lidar com as máquinas e a inteligência artificial e os desprovidos dessas competências. É aqui, nas consequências desta desigualdade, que reside o perigo mais imediato que a todos deve preocupar.

Nos dias de hoje, são já sentidas várias desigualdades que advêm do acesso a maior ou menor escolaridade, traduzida em maiores ou menores níveis de literacia. E, dizem-nos os estudos, o fosso entre os mais e os menos qualificados vai agudizando ao longo da vida, sempre que a idade avança sem que haja qualquer reforço ou acrescento de competências, e, além disso, perdura entre gerações.

Por seu turno, estas desigualdades em termos de literacia são também um corolário das realidades socioeconómicas das famílias. Disso dá conta, por exemplo, o estudo da OCDE “Educational opportunity for all: Overcoming inequality throughout the life course” ao revelar que, tomando por referência os dados do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (PISA), os estudantes provenientes de realidades mais desfavorecidas apresentam três vezes mais probabilidades de terem um desempenho abaixo da linha de base (nível 2) no que respeita à proficiência em ciências do que os estudantes de realidades mais favorecidas. Se atendermos à escolaridade dos pais, os desnivelamentos são igualmente substanciais: a diferença de desempenho entre alunos filhos de pais com ensino superior e de pais com o 3.º ciclo do ensino básico é de 84 pontos, o que equivale a 2,8 anos de escolaridade.

Se transitarmos para a idade adulta, assistimos à mesma diferenciação. Há 46 pontos de diferença nas competências de numeracia que separam os adultos com idades compreendidas entre os 20 e os 29 anos e com pais detentores do ensino superior dos que, tendo a mesma idade, têm progenitores com baixas qualificações, segundo dados trabalhados a partir do último inquérito às competências dos adultos (PIAAC).

O “Monitor da Educação e Formação 2017”, da Comissão Europeia, que apresenta uma panorâmica estatística dos principais indicadores para o ensino e a formação, identifica este mesmo problema, referindo que “a desigualdade é amplamente considerada uma ameaça
à coesão social e à prosperidade a longo prazo das nossas sociedades”, com evidências já muito gritantes: “as pessoas que apenas têm a escolaridade básica são três vezes mais suscetíveis de viver na pobreza ou exclusão social do que aquelas com estudos superiores”.

Ora, se assim é à data de hoje, consegue imaginar o que poderá acontecer quando a exigência das qualificações aumentar, à medida que a robotização, a digitalização e a conetividade for ganhando terreno? É fácil antever que, prosseguindo o caminho traçado até aqui, estaremos a ditar um futuro em que apenas alguns (os que vierem a ser detentores de maiores níveis de competências e de literacias mais adequadas ao trabalho no futuro) terão acesso ao emprego e a uma vivência condigna.

E se isso suceder, não estarão em causa apenas os deveres morais de repartição justa e equitativa da riqueza produzida mas de toda a construção do que é a Europa e do que queremos ser como um povo. Recorda-se que, em 2000, o grande projeto europeu pressupunha a construção de uma potência altamente competitiva e dinâmica no mundo assente no conhecimento. Passados quase 20 anos, há uma consciência redobrada do potencial da educação e da cultura como motor da criação de emprego, do crescimento económico e da justiça social, mas também como meio de expressão da identidade europeia em toda a sua diversidade, razão pela qual a Europa tem vindo a desenhar e a projetar medidas que deverão levar à criação de um Espaço Europeu da Educação até 2025 que funcione para todos sem exceção e que seja promissor das competências para uma vida plena sem deixar ninguém para trás.

As literacias de hoje e de amanhã

Quando falamos hoje em competências já não estamos a equacionar apenas as questões associadas à literacia ou a numeracia. Falamos em todas as ferramentas de que precisamos para atuar nas diferentes dimensões das nossas vidas, sendo evidente que a digitalização tem sido transversal a todas estas dimensões. Assim, não sendo a única dimensão que necessita de ser trabalhada pelos sistemas de educação e formação, a literacia digital ganhou inegavelmente um peso que nunca antes teve e já não é possível perspetivar a inovação, o crescimento ou a prosperidade social sem a considerarmos. A nossa economia é e será cada vez mais digital, com os negócios a dependerem cada vez mais da utilização eficiente de dados, com aquisições cada vez mais em linha, com habitações globalmente conectadas e com empregos novos dependentes de competências digitais que nem sequer somos ainda capazes de antever. Estima-se que 65% das crianças que entram hoje no sistema de ensino venham a ter, no futuro, empregos que ainda não existem.

Efetivamente, nos próximos anos, a vida será crescentemente digital, desmaterializada e conectada, exigindo o domínio de competências cada vez mais complexas para as quais todos teremos de estar continuamente preparados.

Este é, a par de outros, um grande desafio que o nosso País enfrenta, como se depreende da leitura do relatório, referente a 2017, sobre o progresso digital na Europa.

Repartido em vários capítulos (conetividade, capital humano, utilização da internet, integração das tecnologias digitais e serviços públicos digitais), este documento confronta-nos com a nossa realidade, revelando que se ocupamos uma posição mediana em matérias como a conetividade, a utilização da internet, a integração das tecnologias digitais e os serviços públicos digitais, o mesmo já não sucede no domínio do capital humano. Este relatório indica que “a percentagem de cidadãos portugueses que utilizam a Internet uma vez por semana (68%) continua a ser inferior à média da EU (79%). (…) Em 2016, 26% da população adulta portuguesa nunca tinha utilizado a internet, em comparação com a média da UE de 14%. Esta situação explica-se, em parte, pelo facto de 52% da população não ter as competências digitais básicas necessárias para aceder eficazmente à Internet e de 30% não ter quaisquer competências digitais, em comparação com a média da UE de 44% e de 19% respetivamente”. Acresce referir que em Portugal, a mão-de-obra ativa sem competências digitais é de 22%, “o dobro da média da UE”.

Iniciativas e medidas

Portanto, tudo o que puder ser feito para nos fazer avançar neste domínio não só é muito bem-vindo como é absolutamente imperativo, sempre necessário um esforço de aceleração nesse sentido porque as mudanças no mundo digital não ficarão à espera que nos preparemos para elas.

D acordo com os dados divulgados pelo atual executivo em junho deste ano (no contexto do evento Skills Summit’18), apenas 53% dos portugueses têm conhecimentos básicos em literacia digital, razão pela qual o Executivo estabeleceu como meta alcançar uma percentagem de 80% até 2030. Poderá parecer pouco, porque estamos a falar apenas de competências básicas neste domínio da literacia, mas efetivamente, sem o básico também não se alcançam outros patamares.

Além disso, há que reconhecer todo o esforço, bem como a abrangência, da Iniciativa Portugal INCoDE.2030, que se reparte por cinco eixos, dois dos quais (“Educação” e “Qualificação”) diretamente relacionados com desenvolvimento do potencial humano.

O eixo “Educação” visa “assegurar a educação das camadas mais jovens da população através do estímulo e reforço nos domínios da literacia digital e das competências digitais em todos os ciclos de ensino e de aprendizagem ao longo da vida”. Já o eixo “Qualificação” procura “capacitar profissionalmente a população ativa, dotando-a dos conhecimentos necessários à integração num mercado de trabalho que depende fortemente das competências digitais”.

Ambos integram medidas que deverão permitir que sejamos capazes de chegar a 2030 mais qualificados digitalmente e, concomitantemente, em melhores condições de promoção de uma inclusão social efetiva.

E nestes esforços todos os organismos com responsabilidades nesta matéria encontram-se convocados para dar resposta a este desiderato.

A Agência para a Qualificação e o Ensino Profissional (ANQEP) é chamada a trabalhar, na coordenação, em articulação com outros organismos, do desenvolvimento de um sistema de informação de suporte à decisão que permita a análise e a antecipação de necessidades de competências digitais da força de trabalho, numa continuidade do trabalho já encetado com o Sistema de Antecipação de Necessidades de Qualificações que, neste momento, é utilizado para a determinação da rede de oferta qualificante de nível secundário em cada ano letivo. É igualmente incumbida de assegurar as condições para a qualificação da população ativa com competências adequadas às necessidades das empresas em domínios específicos das TIC (incluindo linguagens de programação), através de formações certificadas de nível intermédio ou da obtenção de certificações especializadas oferecidas pela indústria.

Nesse sentido, a ANQEP deu já início a um trabalho que visa atualizar o Referencial de Competências-Chave para a educação e formação de adultos de nível básico, nele integrando uma vertente de literacia digital. Esta atualização determinará que as formações de nível básico dos adultos, realizadas quer por via de cursos de educação e formação de adultos, quer de formação modular, quer ainda de processos de reconhecimento, validação e certificação de competências, passem a integrar obrigatoriamente unidades relativas à literacia digital, alinhadas com o Quadro Dinâmico de Referência de Competência Digital para Portugal, trabalhado no âmbito da iniciativa Portugal INCoDe.2030, mediante os contributos de um grupo de trabalho do qual a ANQEP fez parte.

Por fim, importa referir o envolvimento da ANQEP, a par de outros organismos, na elaboração de um programa de formação de formadores e tutores paras as competências digitais.

Em suma, várias frentes com um mesmo propósito: qualificar digitalmente hoje para que todos, sem exceção, sejam parte ativa no mundo de amanhã.

 

Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional

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