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Emuārs

Sonata para piano a três mãos, para RVCC maior

02/06/2020
Carlos RIBEIRO
Valoda: PT

No teclado do piano deslizam os dedos acelerados e irrequietos da Júlia, do Paulo e da Isabel. São misturas de tons agudos e graves que lançam ao vento narrativas de desistências que viraram coragem e de histórias de barreiras intransponíveis que não resistiram à paixão. A composição é sui generis, as barricadas dos estatutos e das funções no dispositivo de qualificação foram incapazes de conter a vontade de realizar uma partilha que constrói um processo de comunicação colaborativa único. Está assumido. Se o processo foi vivido por um coletivo, o relato do percurso e das aprendizagens a ele associado, teria que ser realizado coletivamente.

Carlos Ribeiro | Praça das Redes

Texto de Júlia Bentes, Isabel Pinto e Paulo Marques

Acredito que esta poderia ser uma comunicação de qualquer um dos vários Centros Qualifica que cobrem o nosso país, mas, neste caso, é o testemunho de três vozes a partir de Mafra, do Centro Qualifica da Escola Secundária José Saramago. 

Um caminho testemunhado a três vozes

Os intervenientes desta mensagem são, pela equipa do Centro Qualifica, uma das duas TORVC (Técnica de Orientação, Reconhecimento e Validação de Competências) e dois adultos que concluíram o seu percurso de RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências) de nível secundário, no passado dia 13 de maio de 2020.

Um testemunho a três vozes não é um desafio fácil, assim como o processo RVCC não o é, ainda que existam muitas vozes que persistam em o considerar como uma modalidade de educação e formação que promove o facilitismo.

A Júlia ataca o piano. Suavemente, há caminho para fazer.

Aprender na ação

Estes adultos, a Isabel e Paulo, chegaram ao nosso Centro Qualifica com uma bagagem cheia de experiências de vida, cheia de aprendizagens, a sua maioria desenvolvida sem os manuais ou programas escolares porque aprenderam em ação: fazendo, experimentando, errando e tentando de novo e aprendendo com os/as outros/as. 

Colocar estes e outros candidatos perante a necessidade de escreverem e refletirem sobre essas aprendizagens e fazerem a sua relação com as unidades de competências do referencial de nível secundário, é sempre um grande desafio, neste caso foi muito bem-sucedido, apesar dos receios, incertezas, dificuldades de conciliação entre as sessões, o desenvolvimento da narrativa e as diferentes esferas das suas vidas:

A Isabel posiciona dez dedos no teclado. Vai libertar os primeiros sons, puxar-nos para uma autoavaliação e para valores como o respeito.

Afinal tempo, arranja-se!

“Houve um momento em que pensei desistir, mas já não se tratava apenas de mim! O exemplo aos meus filhos e porque existem professoras que despendem do seu tempo para estar connosco e fazem o seu trabalho com um sorriso e “braços abertos”. Então no mínimo devemos respeito!

Não temos tempo?! É verdade! A vida anda rápido demais e obriga-nos a um ritmo sem igual, mas se ficarmos doentes, “arranjamos tempo para parar”. Porque havemos de parar apenas quando somos obrigados e não porque queremos fazer algo que nos vai valorizar como pessoas?

Isabel Pinto

Escrever 30 minutos

Penso que é uma questão de organização. Até podemos não conseguir ir a todas as sessões, mas durante a hora de almoço, durante a tarde, à noite temos 30 minutos para escrever um pouco! – É alguma coisa, certo?

Desde a formação de técnicas de escrita, aos meses de sessões de reconhecimento (orientação, descodificação e momentos de construção da narrativa em sala) fui procurando sempre fazer o caminho do CQ… Até que chegou o dia “D”! 

– E agora??

– Vou ficar bloqueada!” Isabel 

O Paulo acelera o ritmo no desempenho. Quer velocidade, atacar novas tonalidades.

Um narrativo estilo Manual de Qualidade

No início não foi fácil, constantemente me perguntava: como vou fazer isto? Após algumas horas de orientação (sessões de reconhecimento), lá comecei a escrever a minha narrativa, ao entregar o meu primeiro esboço, meu deus! A quantidade de informação desarrumada, a forma como a descrevi parecia inspirada num manual da Qualidade. Mas foi esse esboço a base e o pilar principal, a partir daqui foi somente estruturar, demonstrar o melhor de mim, saber-fazer. 

Vamos a isto!

Na primeira devolução da narrativa, ainda num processo de RVCC para o nível básico, a Técnica Rute prontamente me transmitiu uma mensagem positiva, impulsionando-me para um novo patamar, a integração num processo de RVCC de nível secundário. Neste caminho já com a Técnica Júlia, houve alguma complexificação do que me era pedido, mas havia o reforço positivo e um “vamos a isto” que me impulsionavam. 

Neste novo patamar, tive o privilégio de integrar momentos de formação (formação complementar) e assistir, aos fantásticos Cafés Ciência (iniciativa aberta a toda a comunidade educativa, promovida pela Escola Secundária José Saramago), tive a oportunidade de aprender algo de novo, ampliando os meus conhecimentos e o saber-saber.   

Paulo Marques

Extrair e revelar o que a vida arquivou

Com todos os inputs que me foram dados ao longo deste percurso, tive a oportunidade de explorar as minhas memórias, todas as minhas formações, experiências de vida, tanto no desporto como na carreira profissional, valorizando assim aquilo ao qual eu subestimava o seu valor, por ser uma atividade do meu dia a dia.

Sempre com o apoio incansável de todas as minhas formadoras, que conseguiram “extrair” tudo aquilo que tinha guardado dentro de mim.

Neste trabalho em equipa, com as entregas da narrativa e o seu feedback, a estrutura (suportada pela base e pilar), começou a ganhar forma (desenvolvendo sempre mais um tema e explorando outro de seguida), com as validações de competências a surgirem até chegar às 62 competências (das 88 possíveis), 17 em STC, 20 em CLC e 25 em CP. Eis que chegou mais uma etapa, o balanço da minha narrativa, com mais uns ajustes solicitados, foi-me dada a informação de que estava em condições para avançar para o júri final.”

E numa espécie de Rondó mozartiano Júlia introduz o tema do júri que. como veremos, adquire um papel central na reta final do percurso.

Sessão de certificação

Após o caminho que a Isabel e o Paulo percorreram, de acordo com os seus tempos e necessidades, eis que chegou o culminar deste seu percurso, no nosso Centro Qualifica, com o momento após a validação de competências. Este momento designado por sessão de certificação, em que perante um júri, constituído por formadores, em representação de cada uma das áreas de competência, que tiveram previamente acesso aos portefólios reflexivos de aprendizagem finais, a Isabel e o Paulo apresentaram algumas situações de vida significativas (representativas de competências do referencial de nível secundário validadas, pela equipa que os acompanhou), debateram com este júri, mediante a resposta a algumas questões que lhes foram colocadas.

Este momento há muito esperado, por estes candidatos, chegou, mas sem alguma vez imaginarmos que poderia ser deste modo, a distância, através de videoconferência (google meet), com todos os receios que a dependência tecnológica pode trazer. 

 

Júlia Bentes

E antecipando uma marcha, passamos da linguagem musical à linguagem militar, o dia D emerge como dramatização da batalha final.

Todos para um objetivo comum

“Foi diferente do que estava à espera. Os dias que antecederam foram de ansiedade constante! Os ensaios com a técnica Júlia eram motivadores e sempre na vertente de nos colocar o mais à vontade possível, mas a verdade é que por muito que fosse dito, o “desconhecido” deixava-me desconfortável!

No dia “D” o nervoso estava lá, mas a verdade é que “entrou pelo meu ecrã” um grupo de pessoas desconhecidas muito simpáticas, bem-dispostas e com um único objetivo em comum: confirmar que as competências estão lá e que com o trabalho que desenvolvi com foco e persistência é possível alcançar este sonho.

O anúncio de 13 de maio

Depois do dia passar, percebi que afinal, não tinha sido nada parecido com o pesadelo da noite anterior que mais parecia o filme do “Dia do juízo final”.  Dada a situação atual que estamos a viver e que nos obrigou a adequar a nossa vida a uma nova realidade, a minha sessão de júri foi efetuada pelo Google Meet. Com muita pena minha não foi possível ser assistida pela minha família. Por isso, quando terminou e me anunciaram que, a partir deste dia estava oficialmente certificada com o 12º ano, a festa tomou conta de mim. Dizer aos meus filhos que tinha alcançado o meu objetivo foi das situações mais gratificantes que tive na minha vida. Logo a seguir fiz questão de informar aos meus colegas que me acompanharam nesta odisseia, de forma a perceberem que também eles estão próximos de alcançar.

E assim, abençoado pela Nossa Senhora de Fátima (para quem acredita) o dia 13 maio fica uma das datas mais importantes de minha vida!” concluiu Isabel.

Tudo sincronizado

“Com a nova realidade desta Pandemia COVID-19, tivemos que nos e partir para uma apresentação de forma virtual. Com as orientações para a apresentação final, foi com alguma facilidade que elaborei a minha última apresentação, porque o trabalho de base já estava feito. Foi importante o contacto incansável da técnica Júlia, por email ou telefone, sempre a recomendar os ajustes finais. Até que me disse: “na minha opinião está pronto”.  

Realizamos alguns ensaios e testamos as comunicações para que no dia 13 de maio, estivesse tudo em plena sincronização.

Aprendizagem permanente

Com alguma ansiedade, esperei pela hora da minha apresentação, mas quando a iniciei, tudo desapareceu (interiorizei como mais uma sessão de formação). Até que chegou a hora das perguntas finais, aí sim, estava completamente à vontade, foi com muita satisfação que pude partilhar com todos alguns dos meus conhecimentos.

Quando terminei a minha apresentação senti uma sensação de dever cumprido, podendo então descomprimir e relaxar. Mas no dia seguinte já estava a consultar as universidades na minha área de residência. Pessoalmente acredito piamente numa aprendizagem permanente”. 

Sorrisos e lágrimas 

Após a deliberação do júri de certificação, comunicar à Isabel e ao Paulo que estes formadores confirmaram que os seus percursos, narrados e defendidos, são meritórios da atribuição da certificação de nível secundário, é o momento mais gratificante deste caminho em que muito aprendi com cada um deles. É um dos momentos que dignifica também o trabalho das equipas dos Centros Qualifica porque através das opiniões transmitidas quer pelos elementos do júri, quer pelos sorrisos e, às vezes também lágrimas dos candidatos, é reconhecido o trabalho que juntos fazemos, para que outros/as candidatos/as sigam os passos da Isabel e do Paulo. 

A Isabel volta à partitura para aconselhar

O meu conselho é para agarrarem esta oportunidade com toda a força, pois tudo o que aprenderem irá ser útil para o futuro, tanto a nível profissional como pessoal e com a quantidade de desemprego que se avizinha, toda ajuda que nos acrescente valor é bem-vinda!

E o Paulo fala-nos do sabor da vitoria

Deixo umas palavras aos meus colegas, que ainda estão neste percurso. Para ter sucesso, temos de tentar fazer mais coisas, se tentarmos fazer mais coisas cometeremos erros, logo fazer erros é sinal de muito bom progresso. Assim eis o dia em que tudo faz sentido, atingindo a nossa meta, o sabor da vitoria é de um valor moral inalcançável, valeu a pena!

E para terminar na tónica, Júlia faz-nos uma recapitulação sobre o aprender, que sendo tocada a 3 mãos adquire uma energia única reforçada pela dinâmica da comunicação colaborativa. 

“A única coisa que não se pode dar ao luxo de não fazer é aprender” (Hank Paulson)

A três queremos agradecer ao Programa Qualifica pelo sentido que veio dar à vida de tantos adultos, que veem reconhecido o seu valor, à Escola Secundária José Saramago – Mafra por ter apostado na criação de um Centro Qualifica e a todos os envolvidos pelo seu empenho e dedicação.

Isabel Pinto, Paulo Marques e Júlia Bentes (Centro Qualifica – Escola Secundária José Saramago – Mafra)

 

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